31/03/2021 – Diário de Cuiabá – Ano de 2020 teve 22% mais mortes que o previsto antes da pandemia

País teve 1,5 milhão de óbitos, quando nível normal seria 1,2 milhão; dado se consolidou só agora

O ano de 2020 teve 1.506.607 mortes registradas no Brasil, sendo que 275.587 não teriam ocorrido em um cenário normal, sem pandemia. Esse excedente de 22,4% é o resumo mais preciso até agora do impacto geral da Covid-19 no país, afirma um relatório técnico encomendado pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde).

O trabalho demorou a sair porque se baseou em atestados de óbito registrados em cartório, que não são imediatos, e podem ser emendados. Mais de 20 mil óbitos por Covid-19 ocorridos em 2020 entraram nas estatísticas oficiais neste ano.

Os números foram compilados agora pelo Conass em parceria com a empresa de consultoria Vital Srategies, que computou 215.070 mortes por Covid-19 em 2020. Ou seja, dos 22% de excedente de mortes no país, 5% não estão bem explicados.

São mais de 60 mil óbitos que devem ter sofrido falhas na notificação da Covid-19 ou ocorreram por causas indiretas, “efeitos colaterais” da pandemia, como a sobrecarga do sistema de saúde, que deixou vítimas de acidentes ou portadores de outras doenças sem atendimento adequado.

A equipe que reuniu os números em uma nota técnica divulgada ontem foi liderada pela epidemiologista Fátima Marinho, ex-diretora de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde do Ministério da Saúde.

Como os dados da Covid-19 demoram a se consolidar, a média móvel de mortes registrada na noite desta segunda-feira (29), por exemplo, o recorde de 2.655 mortes por dia, é uma subestimativa.

Marinho, que já começou a compilar os dados de 2021, se diz preocupada com a situação deste ano. Como o atraso de notificação e o nível de falhas em registros já é bem conhecido, agora é possível fazer projeções melhores.

“O cenário não é bom. Vamos chegar a 3.000 mortes por dia na media, e tomara que não cheguemos a 4.000. Mas eu diria que a marca de 3.000 é algo que já está dado”, afirma.

Ainda que com dados incompletos, essa tendência já está se desenhando nos registros em cartórios, que estão carimbando mais de 5.000 atestados de óbito por dia no país agora em março, quando o normal seria de 3.500 (sem contar subnotificação e atraso no registro).

Os números dessa tragédia humanitária são visíveis na pressão de demanda sobre os serviços funerários do país.

“Esse é um número histórico que, sem Covid-19 só seria atingido daqui a 20 anos”, diz Lourival Panhozzi, presidente da Associação Brasileira de Empresas Funerárias. “Como restam ainda muitos registros para fazer em março, o número final deve ultrapassar 5.500 (incluindo mortes não relacionadas à Covid-19)”.

EPIDEMIA EM JOVENS – Dois recortes importantes saíram da nota técnica que a pesquisadora publicou hoje. Um deles mostra que, apesar de jovens e adultos serem menos susceptíveis à doença grave por Covid-19, a mortalidade cresceu proporcionalmente mais entre eles do que entre os idosos.

O excedente de mortalidade de 22% na verdade é uma média, porque foi de 20% no grupo com 60 anos ou mais, enquanto foi de 32% no grupo com idades abaixo de 60 anos.

Segundo Marinho, não há razão única explicando esse efeito contra intuitivo, mas ela tem a ver com a maior exposição ao coronavírus à qual os jovens se submetem no país, sobretudo a parcela mais pobre da população, que também tem menos idosos.

“A expectativa de vida saudável no Brasil já era muito menor que a expectativa de vida como um todo. E uma parcela grande da população aqui, que teve que sair mais de casa para conseguir sobreviver e ganhar a vida, ficou muito exposta, também pelo tipo de trabalho que exerce e o tipo de transporte que usa”, explica a cientista.

Outro recorte mostra que a mortalidade por Covid-19 também foi maior entre homens por causa disso, diz Marinho, porque mulheres são tipicamente mais cautelosas com a própria saúde e se protegem mais.

Os resultados do levantamento encomendado pelo Conass confirmaram num cenário nacional, o que outros pesquisadores estavam vendo regionalmente.

“Essa nota técnica dá continuidade a essa linha de análise, agora com mais detalhes”, diz o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da USP, que havia detectado exposição proporcional maior em jovens de São Paulo.

“Isso ocorre também porque o impacto da epidemia foi maior entre os mais novos, e parte da mortalidade entre os mais velhos já era esperada”, diz.

Fonte: Diário de Cuiabá

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